Congo de Ouro

Capoeira e Percussão Romário Itacaré

Tenha em Mente que a percussão é uma das mais antigas formas de comunicação entre nós e nossos ancestrais
Aprenda RSS feed e encontre você mesmo! Prof Romário

Categoria : Dica de Livros

Conheçam Mestre Traíra

Mestre Traira

A Biografia de Mestre Traíra

Frequentador  do Barracão do Mestre Waldemar da Pero Vaz, da Liberdade e do Corta Braço,é um tanto difícil escrever sobre mestre Traíra devido à falta de registros que ajudem a construir a sua biografia.
Seu nome era José Ramos do Nascimento. Sabe-se que era muito famoso na cena capoeirística da Bahia. Era conhecido como perito na arte das rasteiras e cabeçadas.
O escritor Jorge Amado, frequentador das rodas de capoeira no famoso barracão de Mestre Waldemar, descreveu Mestre Traíra como está descrito abaixo:

“Traíra, um caboclo seco e de pouco falar, feito de músculos, grande mestre de capoeira. Vê-lo brincar é um verdadeiro prazer estético. Parece bailarino e só mesmo Pastinha pode competir com ele na beleza dos movimentos, na agilidade, na rigidez dos golpes. Quando Traíra não se encontra na Escola de Waldemar, está ali por perto, na Escola de Sete Molas, também na Liberdade”.
O Filme
Mestre Traíra também teve participação no curta Vadiação, de Alexandre Robatto Filho, produzido em 1954, junto com muitos capoeiras famosos daquela época como Curió, Nagé, Bimba, Waldemar, Caiçara, Crispim e outros. Este filme foi um marco na história cinematográfica da capoeira.
O Disco
Também gravou um disco junto com Mestre Cobrinha Verde, que recebeu o nome de “Capoeira da Bahia”. O disco foi produzido pela gravadora “Xauã” e é considerado uma raridade da produção fonográfica da capoeira.
 Primeira Capa:
Mestre Traíra
Por volta de 1963, o ator de cinema Roberto Batalin produz um disco de capoeira com os mestres Traíra, Gato et Cobrinha Verde. Pouco tempo depois este disco estreia novamente com o título Capoeira da Bahia, mestre Traíra. Uma versão em CD encontra-se facilmente. Para completar estas músicas, que figuram em nossa opinião entre as melhores gravações comerciais de capoeira existentes, publicamos as informações, fotos e texto que encontravam-se na primeira edição, e que não foram retomados nas demais.

Desenho de Carybé:

Carybé, fez os desenhos que ilustram a capa, nome artístico de Hector Julio Páride Bernabó (Lanús, 7 de fevereiro de 1911 — Salvador, 2 de outubro de 1997), foi um pintor, gravador, desenhista, ilustrador, ceramista, escultor, muralista, pesquisador, historiador e jornalista argentino, brasileiro naturalizado e residente no Brasil desde 1949 até sua morte, desenhou com paixão toda a magia e cores dos Candomblés e Capoeiras e demais manifestações da Bahia.

A produção

Em 1960, a peça Pagador de Promessa, de Dias Gomes, leva um grande e merecido sucesso. O jogo de capoeira nela aparece como um sinal da cultura popular que se opõe ao rigor despido de compaixão da hierarquia católica; os capoeiristas participam da ação dramática. A adaptação da peça para o cinema ganha a Palma de Ouro em Cannes em maio de 1962. Centenas de milhares de espetadores assistam à cena de jogo de capoeira nos degraus da igreja do Passo, em Salvador, no filme de Anselmo Duarte. Este sucesso oferece uma oportunidade àqueles que apreciam o jogo de capoeira para torna-lo melhor conhecido.

capa 1Mais ou menos nessa época, o ator Roberto Batalin grava a capoeira de Mestre Traíra, com a participação de Gato, já conhecido como tocador de berimbau, e a visita do célebre mestre Cobrinha Verde. Com o auxílio de vários artistas famosos, Augusto Rodrigues, Caribé, Salomão Scliar,Marcel Gautherot, José Medeiros, e de Dias Gomes, quem escreve um texto introdutivo, Roberto Batalin edita as suas gravações em disco LP, com álbum de 16 páginas de
textos e fotos, na casa Xauã, no Rio de Janeiro, que lança assim o seu segundo disco de folclore brasileiro.

A Capa que ficou mais Conhecida:

 

capa 2Seja porque a primeira edição tivesse sido muito limitada, ou porque depois do golpe militar de 1 de Abril 1964, o nome de Dias Gomes, demitido do seu posto na Rádio Nacional e cujas peças estão interditadas, não prestava mais para vender discos, uma segunda capa, muito mais simples, foi logo realizada. Na mesma época, a J.S. Discos lança o Curso de Capoeira Regional de Mestre Bimba; portanto ficou útil precisar, Capoeira da Bahia — Mestre Traíra. Esta segunda edição, ou segunda apresentação, ficou, afinal, mais conhecida do que a primeira.

 

Recentemente o Contra Mestre Rafael de Lemba, Xicarangoma Tendulá postou algumas fotos com o disco raro original nas mãos vejam abaixo:

 

TEXTO DE DIAS GOMES SOBRE A CAPOEIRA DA ÉPOCA:

Texto de Dias Gomes

repro
primeira página do álbum.

O texto aparece em duas colunas, ocupando toda a terceira página do álbum. Este ainda traga, em uma coluna, uma tradução inglesa na 4ª página e uma tradução francesa na 6ª página.

 

 

 

 

repro

 

CAPOEIRA é luta de bailarinos. É dança de gladiadores. É duelo de camaradas. É jogo, é bailado, é disputa — simbiose perfeita de fôrça e ritmo, poesia e agilidade. Unica em que os movimentos são comandados pela música e pelo canto. A submissão da fôrça ao ritmo. Da violência à melodia. A sublimação dos antagonismos.

Na Capoeira, os contendores não são adversários, são “camaradas”. Não lutam, fingem lutar. Procuram — genialmente — dar a visão artística de um combate. Acima do espírito de competição, há neles um sentido de beleza. O capoeira é um artista e um atleta, um jogador e um poeta.

reproE preciso entretanto distinguir a verdadeira Capoeira, tal como ainda hoje é praticada na Bahia, daquela que notabilizou malandros e desordeiros, em medos do século passado, no Rio e no Recife. Aqui [no Rio, N.d.E], a Capoeira era realmente uma luta de rua, que incluía a faca e a navalha, além dos golpes caraterísticos. Levava o pânico às festas populares e provocava a justa intervenção da Polícia. Na Bahia mesmo, por aquela época, os capoeiras andavam preocupando as autoridades da província pelas desordens que provocavam. Para ver-se livres dêles, o Governo mandou-os lutar no Paraguai. E pela primeira vez a rasteira, o , a meia-luae o rabo de arraia foram usados como armas de guerra. Com successo, a julgar pela História…

 

Mas a Capoeira é apenas uma vadiação — assim a chamam os jogadores da Bahia, que ainda hoje a praticam nas festas no Bonfim e da Conceição da Praia, onde os mestres se exibem, continuando a glória de Mangangá e de Samuel Querido de Deus, capoeiras lendários.

 

 

 

reproTEM NOVE MODALIDADES A ARTE DA CAPOEIRA, que se distinguem pela música e pela maneira de jogar. São elas:

  • CAPOEIRA DE ANGOLA
  • ANGOLINHA
  • SÃO BENTO GRANDE
  • SÃO BENTO PEQUENO
  • JOGO DE DENTRO
  • JOGO DE FORA
  • SANTA MARIA
  • CONCEIÇÃO DA PRAIA
  • ASSALVA SINHÔ DO BONFIM

A mais praticada — e também a mais rica em temas e coreografia — é a primeira. Ha também a “capoeira regional” ou “luta regional baiana”, de mestre Bimba, com exertos de jiu-jitsu, box e catch, justamente repudiada pelos puristas da arte.

NA CAPOEIRA DE ANGOLA, UM RITUAL PRECEDE A LUTA: dispostos em semicírculo, os “camarados” iniciam o canto, ao som dos berimbaus, pandeiros e chocalhos. Agachados diante dos músicos, os dois jogadores, imóveis, em respeitoso silêncio. É o preceito. Os capoeiras se concentram e, segundo a crença popular, esperam o santo. Os versos do preceito variam, mas os últimos são sempre os mesmos:

Eh, vorta do mundo
camarado!

reproÉ o sinal. Girando o corpo sobre as mãos, os capoeiras percorrem a roda e dão início à luta-dança, cuja coreografia é ditada pelo andamento da música. Esta jamais é interrompida, sucedendo-se os temas, de ritmo variável, tirados pelo mestre e repetidos pelo coro. As primeiras melodias são, geralmente, dolentes — e a luta começa em câmara-lenta, com golpes largos, onde os capoeiras evidenciam o perfeito controle dos músculos. Logo muda o toque do berimbau e o ritmo se acelera — os jogadores mudam o jogo e as pernas começam a cortar o ar com agilidade incrível. A assistência estimula os contendores:

— Quero ver um “rabo de arraia”, Mestre Coca!

 

 

 

repro— Seu menino, que “aú”!
— Vamo lá, meu camarado, deixa de “mas-mas” e toca uma “chibata” nele!

E não falta um farejador de defunto que diga, soturnamente
— Eu queria ver isso mas é à vera….

A capoeira é um brinquedo. Assim, muitos golpes são proibidos, como aqueles que atingem os olhos, os ouvidos, os rins, o estômago, etc.

Mas se a luta é à vera, vale tudo…

reproOs golpes mais conhecidos são:

  • O BALÃO — com ambos os braços, o capoeira enlaça o corpo do adversário e o atira por cima da cabeça, para trás.
  • A RASTEIRA — um raspa com uma das pernas, procurando golpear os pés do contendor e deslocá-lo.
  • O RABO DE ARRAIA — com ambas as mãos no chão, o capoeira descreve um semicírculo com as pernas entesadas, visando atingir o companheiro.
  • A CHIBATA — o pé cai do alto, num arco de 45 graus.
  • O AU — salto mortal, firmando-se sobre as mãos e lançando ambos os pés para a frente.
  • A BANANEIRA, A MEIA LUA E A CHAPA PÉ — são variações da Chibata .

reproHá ainda a CABEÇADA, o GOLPE DE PESCOÇO, O DEDO NOS OLHOS e muitos outros golpes, ou passos dêsse estranho e másculo ballet que os escravos bantus nos trouxeram de Angola, com sua bárbara e poderosa cultura.

E possível que a Capoeira, tal como é praticada hoje na Bahia, muito pouco deva à sua pátria de origem. Nos versos e nas melodias gravados neste álbum, sente-se a presença de nosso povo, em sua capacidade de assimilação e recriação. E a própria transformação de uma luta em um bailado, de uma contenda num motivo para cantar e dançar é muito de nossa gente…

A Capoeira é uma manifestação autêntica da índole, do espírito e do gênio do nosso povo. E com ela nós mandamos ao mundo uma mensagem: que bom se todo conflito, todo litígio, por mais violento, pudesse ser resolvido com música e poesia.

DIAS GOMES

repro

Infelizmente isso é tudo o que consegui encontrar sobre Mestre Traíra.  A Pesquisa continua, e caso você tenha algum material, história, imagens e ou gravações e queira compartilhar conosco, ligue para 13 99636-1313 fale com Romário, e não deixe essa rica cultura morrer em arquivos empoeirados e humidos….Muitos mestres de capoeira estão sendo esquecidos por falta de registros ou documentos, mas o importante é juntar o pouco que se tem e assim manter viva a história desses mestres. Se alguém tiver alguma informação para acrescentar, entre em contato através do formulário ou deixe um comentário. Até a próxima.

O Dossiê da Capoeira do IPHAN, Um rico conteúdo sobre a Capoeira, sua Origem e muito mais Disponível em PDF Aproveite pois realmente quem gosta de Capoeira vai amar o conteúdo:
O desafio do inventário cultural para registro e salvaguarda da Capoeira como Patrimônio Cultural do Brasil, realizado entre 2006 e 2007, era construir um diálogo entre o tempo histórico passado e o tempo presente. Como patrimônio vivo, a capoeira se mantinha no cenário atual por meio dos mestres que representavam o saber e, ao mesmo tempo, acumulava produção documental que atravessava os últimos três séculos. Este trabalho – elaborado por uma equipe multidisciplinar – reconstitui brevemente a história da capoeira e registra seu momento presente, por meio de pesquisa historiográfica e trabalho de campo. As fontes estudadas encontram-se nos maiores acervos de documentos sobre a capoeiragem do Rio de Janeiro e em Salvador.

O DOSSIÊ DA CAPOEIRA DO IPHAN

Dicionario Kimbundu

 

Coordenado por J.Pereira do Nascimento em 1907,(Médico da Armada Real)  foi escrito o dicionário de Português para Kimbundu, com expressões palavras e frases, como é do século passado, é comum encontrar palavras do próprio português escritas erroneamente, mas quem poderá dizer se hoje é que acertamos?. Muitas curiosidades nas expressões e palavras disponível para baixar…

DOWNLOAD

O kimbundu é a língua da região de Luanda, Catete, Malanje e as áreas de fronteira no Norte (Dembos – variante crioula kimbundu/kikongo) e no Centro (Kuanza Sul – variante crioula kimbundu/umbundu). É falada por mais de um milhão e meio de pessoas.
Faz parte da grande família de línguas africanas a que a partir do século passado os europeus convencionaram chamar Bantu (bantu significa «pessoas», e é plural de muntu. Em Kimbundu mutu designa «pessoa», com o plural em atu).
Estes apontamentos foram elaborados com o intuito de ajudar todos aqueles que manifestam preocupação em conhecer os entrelaçamentos da língua portuguesa com as línguas africanas. Neste caso, o kimbundu foi uma das línguas de África que mais conviveu com o português, pelo menos desde o século dezesseis até à actualidade.
Penso ser a primeira vez que na Internet aparecem apontamentos de uma língua africana falada num PALOP.
Para a elaboração destes elementos gramaticais rudimentares não foi usada qualquer obra de referência. Utilizei somente os meus conhecimentos pessoais.
1 – Regra geral
Ao contrário de muitas línguas europeias, o Kimbundu caracteriza-se pela prefixação na formação do género, dos tempos e pessoas verbais.
As palavras concordam entre si pelo prefixo, o que confere à língua grande musicalidade e ritmo.
O dikamba diami dia-mu-zeka (O meu amigo está a dormir)
O makamba mami a-mu-zeka (Os meus amigos estão a dormir)
Muxima uami (O meu coração. Note-se a concordância mu — u, a regra seria mu – mu, mas não a musicalidade)
Frase simples:
Eme ngabiti ku mbanji ia dibata die (Passei perto da tua casa)
– O verbo kubita está no passado (ngabiti). No presente seria ngibita.
– A partícula ku aqui não é a desinência dos verbos, mas sim «perto» ou «dentro», mas sem pormenorizar. Tem menos força que mu (dentro de, com especificação). Mas muitas vezes ku e mu usam-se consoante a concordância rítmica.
– Por corruptela, o português vulgarizou kubata para designar a casa dos angolanos. Mas ku bata ou ku dibata significa «em casa».
«Casa» também pode ser inzo (pl. jinzo). Assim: inzo iami (a minha casa), jinzo jietu (as nossas casas), jinzo jiami (as minhas casas), jinzo jia (as casas deles)
– Mbanji ia (perto de — repare-se na concordância «mb» «i». Não podia ser de outra maneira)
– Dibata die (tua casa — die aqui refere-se a «teu, tua» e por isso o som é mais aberto do que o diê referido a «seu, sua»
2 – Pronúncia e sons
Em Kimbundu os sons são abertos, com algumas excepções («uê»).
Regra geral não há acentos. As palavras são normalmente graves.
«s» é sempre «ss»
«z» é sempre «z»
«c» é quase sempre representado por «k»
«g» é sempre «g» e nunca «jê» que, em kimbundu é sempre representado por «j»
Não há som «rr», quando muito, em algumas regiões, «r» muito fraco (como em «conversar»).
3 – Classes de nomes
Há em Kimbundu várias classes de nomes, com distintas formas de plural.
A) MU — A
Só se aplica a pessoas
muxiluanda (primitivo habitante da ilha de Luanda) — axiluanda
muhatu (mulher) — ahetu (plural irregular por não poder haver dois sons «a» seguidos)
mona (filho) — ana («mona» é aglutinação de «mu+ana»)
mubika (escravo) — abika muadiakimi (velho sábio) — adiakimi
B) MU — MI
O mesmo prefixo, desde que não se aplique a pessoas, forma plural diferente
muxima (coração) — mixima
mulembu (dedo) — milembu
muxitu (mata) — mixitu
mundele (branco) — mindele
mutue (cabeça) — mitue
C) DI — MA
dikamba (amigo) — makamba
diala (homem) — mala
dikolombolo (galo) — makolombolo
dikota (o mais velho) — makota
diaku (mão) — maku
D) KI — I
kinama (perna) — inama
kilumba (rapariga) — ilumba
kima (coisa) — ima kifuba (osso) — ifuba
kimuezu (barba) – imuezu (barbas)
E) MP, ND, NG, MB, etc — JI
São nomes de origem estrangeira.
Note-se que o «m» e o «n» iniciais antes de consoante nunca se lêem. A sua função é nasalar a consoante.
No singular, a palavra seguinte deve começar por «i»: mpange ietu (o nosso companheiro); tata ie (o teu pai); mama iami (a minha mãe); nja iami (o meu pénis).
Muitas vezes utiliza-se o singular como plural, mas a palavra seguinte vai para o plural: mpange jietu (os nossos companheiros), ngulo jiami (os meus porcos)
ndungo (picante) — jindungo
mpange (companheiro) — jipange (a nasalação cai)
ngulo (porco-leitão) — jingulo
mbolo (pão) — jimbolo
henda (saudade) — jihenda
sabu (provérbio) — jisabu
nvunda (raiva) — jinvunda
tata (pai) — jitata
sanji (galinha) — jisanji
ndanji (raiz) — jindanji
ngandu (jacaré) — jingandu
mbua (cão) — jimbua (jímbua)
nja (pénis) — jinja
hombo (cabra) — jihombo («h» aspirado)
F) KA — TU
O prefixo ka designa o diminutivo
kangombe (boizinho) — tungombe (boizinhos)
kasanji (galinha pequena) — tusanji
Kahombo (cabrinha) – tuhombo (cabrinhas)
Kalumba (rapariguinhas) – tulumba (rapariguinhas)
Kandenge (rapazinhos) – tungembe (rapazinhos)
Kanzamba (elefantezinho) – tunzamba (elefantezinhos)
G) Plurais irregulares
Não há regras precisas. Já vimos muhatu/ahetu
DI — ME
disu (olho) — mesu
4) Verbos
A) Geral
Todos os verbos, no infinito, têm a desinência ku
Kuala (ser), Kuala ni (ter), Kubonga (apanhar), Kuia (ir), Kuiza (vir), Kudia (comer), Kukalakala (trabalhar), Kusanga (encontrar), Kuloa (odiar), Kuzola (amar), Kutunda (sair)
B) Pronomes pessoais
Para se conjugarem os verbos, tal como nas outras línguas, utilizam-se os pronomes pessoais que, em muitos casos, se sutentendem:
eme
eie
muene
etu
enu
ene
C) Pronomes possessivos (usam-se com prefixos concordantes com os nomes)
uami (o muxima uami – o meu coração; o dikamba diami – o meu amigo; o muhatu uami – a minha mulher; o inzo iami – a minha casa)
ue (o tata ie – o teu pai)
ue (o inzo ie – a casa dele)
tuetu (o ixi ietu – a nossa terra)
nuenu (o mbiji ienu – o vosso mês)
a (o mona-a-ngulu a – a leitoa deles — «mona-a-ngulu» significa literalmente: «filho de porco»)
D) Presente do indicativo
Tome-se o exemplo simples do verbo kuala (ser)
(eme) ngala <ngi+ala>
(eie) uala
(muene) uala
(etu) tuala
(enu) nuala
(ene) ala
Há aqui uma concordância «lógica». Na primeira pessoa do singular o prefixo do verbo é sempre «ng». As outras seguem os prefixos do pronome (note-se: muene uala. Podia ser «muene muala», mas o «m» cai, para tornar o encadeamento «mais leve»).
-Verbo kukala ni (ter)
ngala ni, uala ni, uala ni, tuala ni, nuala ni, ala ni
NOTA: O verbo ter em kimbundu expressa-se sempre como «ter com…»:
ngala ni nzala (tenho fome), ki ngala ni makamba (não tenho amigos)
-Verbo kuiza (vir)
ngiza
uiza
uiza
tuiza
nuiza
iza
E) Presente-acção A acção forma-se com mu ou ngolo ou ngalo, conforme a região.
(eme) nga-mu-tunda (estou a sair) ou ngolo tunda ou ngalo tunda
(eie) ua-mu-tunda; uolo tunda; ualo tunda
(muene) ua-mu-tunda; uolo tunda; ualo tunda
(etu) tua-mu-tunda; tuolo tunda; tualo tunda
(enu) nua-mu-tunda; nuolo tunda; nualo tunda
(ene) a-mu-tunda; olo tunda; alo tunda
(eme) nga-mu-ia (estou a comer) ou ngoloia ou ngaloia
(eme) nga-mu-xana (estou a chamar)
(eme) ngolo kuiza (estou a vir); (eme) ngoloia (estou a ir)
F) Futuro
Forma-se com ngondo
(eme) ngondo kuiza (virei) — Neste caso o «ku» do verbo não cai. É um imperativo da musicalidade da linguagem falada
(eie) uondo kuiza
(muene) uondo kuiza
(etu) tuondo kuiza
(enu) nuondo kuiza
(ene) ondo kuiza
Mas:
ngondo zeka (dormirei); ngondo fua (morrerei)
ngondoia (comerei); ngondo kuala (serei, estarei)
G) Passado
– Do verbo kuzeka
ngazekele, uazekele, uazekele, tuazekele, nuazekele, azekele (dormi)
ngalele (fui, verbo ser)
– Do verbo kuia
eme ngai (o presente é eme ngia, uia, uia, tuia, nuia, aia), eie uai, muene uai, etu tuai, enu nuai, ene ai
– Do verbo kukala (ser)
ngexile, uexile, uexile, tuexili, nuexile, axile
– Do verbo kukala ni (ter)
ngexile ni, uexile ni, uexile ni, tuexile ni, nuexile ni, axile ni
H) Imperativo
– Na segunda pessoa do singular forma-se com o infinito do verbo sem a partícula ku
: Zuela! (fala!)
Tunda! (sai!)
Diê! (come! — Para dar mais força à ordem, o «a» final do verbo – Kudia (acento no «u») – foi substituido pelo som longo iê)
– Na segunda pessoa do plural, forma-se com o sufixo «enu»:
Dienu! (comei!)
Zekenu! (dormi!)
Ivuenu! (ouvi!) – verbo Kuivua (acento no «i»)
Este enu tem a ver com o significado «gentes», «pessoas» ( enu akua zanzala — as pessoas da sanzala)
I) Negativa
– Uma das possibilidades de formação é com a partícula «ki»:
eme ki ngala ni nzo (não tenho casa)
eme ki (ngala) muhatu (não sou mulher)
– Mas também se utiliza a partícula «ku»:
Monami, kutundê! Monami zeka!
(Meu filho, não saias! Meu filho, dorme! – Esta frase pertence a uma canção muito popular em Luanda em Fevereiro de 1961. É o lamento de uma mãe que aconselha o filho a não sair de casa por causa da Pide)
– Outra forma de negativa verbal:
Xitu, nga-i-diami (A carne, não a comi . Não se diz «Ngadiami o xitu»)
Eme ngeniami (ji)ndandu (Já não tenho parentes há muito tempo; a forma verbal ngeniami significa «não tenho há muito tempo»)
J) Forma reflexa
Forma-se com a partícula di:
Ku-di-sanga kua makamba
(encontrar-se com os amigos, dar encontro com os amigos)
(mona+ietu)
(estou a encontrar-me com o nosso filho)
L) Pronomes reflexos
ngi, ku, mu, tu, nu, a
Muene ua-ngi-zola (ele ama-me)
(Ene) a-ku-vualela (nasceram-te)
Em Kimbundu não há «o», «a» como reflexos, mas sim «lhe», «lhes».
Por isso no Português de Luanda se diz «eu vi-lhe»: Nga-ku-mona (eu vi-te)
M) Muitas vezes o verbo não aparece na frase:
Eme, diala (eu sou homem)
Kitadi, mona-a-ngene (o dinheiro é filho alheio). Nota: ngene usa-se muito em kimbundu para designar as coisas dos outros, alheias ( inzo ia ngene – casa alheia; kitadi-kia-ngene – dinheiro alheio)
5) Forma de cumprimento
O cumprimento matinal é extremamente importante. Não tem nada a ver com o seco «bom dia» ou «olá». É um cumprimento em que se estabelece uma relação social.
– Uazekele kiebi?, ou simplesmente, Uazekele? (dormiste bem?)
– Ngazekele kiambote! (dormi bem!)
Depois disto pergunta-se pelos filhos, pela mãe, pela avó, etc.:
-O tata, kiebi? (O mama, kiambote?)
(o teu pai, está bem? a tua mãe, está bem?)
Quando as pessoas se encontram, perguntam-se:
– Kebi? (ou uala kiebi?) (como estás?)
– Kiambote! (ou ngala kiambote!) (estou bem!)
E quando se despedem, podem dizer:
-Mungu, ue! (até amanhã)
-Mungu uenu! (até amanhã a vocês!)
6) Sim, não
Kiene (sim)
Kana (não) – ler «kanáa»
– Uandala kuia ni eme? (queres ir comigo?)
– Kana! (não!)
7) Expressões de reforço
A expressão muene, além de significar «ele», «ela», significa também «mesmo».
Eie muene! (tu mesmo!)
Muene muene! (ele mesmo!)
O tata muene! (o pai mesmo!)
Kidi muene! (é mesmo verdade!)
Nga-ku-zolo kiavulu muene! (Gosto mesmo muito de ti! – É a expressão mais poderosa usada em kimbundu para manifestar directamente um grande amor)
Kiambotebote (muito bem), kiavuluvulu (muitíssimo), kionenenene (muito grande), kiofelefele (muito pequeno):
-Eme, kiambotebote! (estou muito, muito bem!)
– Uala ni kitadi? – Kiavuluvulu! (tens dinheiro? Muitíssimo)
Repare-se também neste reforço:
Tuoloietu! (estmos juntos! – Há aqui duas partículas repetitivas designando a primeira pessoa do plural: «tu». É um reforço muito comum no kimbundu)
8) Diversos
A)
A-ngi-vualela mu Luanda (verbo Kuvuala – nascer) (Nasceram-me em Luanda)
Em Kimbundu não se diz «nasci» mas «nasceram-me», «nasceram-te», etc.: a-mu-vualela (ele nasceu; literalmente: nasceram-lhe)
B) Talvez devido à necessidade do ritmo, em kimbundu diz-se:
– O kikalakalu, nga-ki-zuba kia (literalmente: o trabalho, acabei-o já. Em Português diz-se: Já acabei o trabalho).
A expressão «kia» (já) vai sempre para o fim da frase:
– Dikolombolo diakokolo kia! (o galo já cantou!)
– (Eme) ngadi kia! (Já comi!)
– (Ene) afu kia (Eles já morreram)
– O jisoba jafu kia (Os sobas já morreram)
C) Ki (quando)
Ki ngibita bu tandu ia dikalu, akuetu a-ngi-xana monangambéee!
(«Quando passo em cima do carro (camioneta) as pessoas chamam-me filho de carregador». É a forma pejorativa como os colonos tratavam os negros quando estes iam na carroçaria das camionetas, muitas vezes para o «contrato» (trabalho nos cafezais), pois não tinham acesso à cabina). Note-se o aportuguesamenteo de dikalu (carro), tal como ngeleja (igreja).
Ki uenda, uibula (quando viajares, informa-te)
D) Kioso (todo)
O izua ioso (todos os dias. Literalmente: os dias todos)
E) Boba, bana, baba
Boba (em algumas regiões baba) (aqui, cá)
Bana (banáa) (lá, ali)
Há regiões em que o «b» é duro e quase aspirado, como se tivesse um «v» à frente: «bvabva»
Ngala boba (estou aqui)
Mas note-se esta expressão característica:
Za kuku! (Vem cá!)
F) Género Não há feminino como ele se entende em Português.
Assim, usam-se as expressões auxiliares «muhatu (mulher)» e «diala» (homem) quando se quer especificar:
Mona-ua-muhatu (criança do sexo feminino)
Mona-a-diala (criança do sexo masculino)
Nzamba-ia-diala (elefante macho)
Hoji-ia-muhatu (leoa)
Mas há outra forma:
sanji — dikolombolo
G) Conversar
Em Kimbundu não se diz conversar, mas «pôr conversa»:
Kuta maka (muene ua-mu-kuta maka – eçle está a pôr conversa)
H) Artigo definido
Em Kimbundu só se usa «o» correspondente aos portugueses «o, a, os as».
O njila (o caminho – o jinjila – os caminhos)
O nhoka ia-di-nhingi (a cobra enrolou-se)
I) Tempo
Mu ukulu (antigamente, há muito tempo)
Lelu (hoje. Usa-se muito dizer Lelu, lelu! – hoje é hoje)
Mungu (amanhã)
Mungudina (á) (depois de amanhã)
Maza (ontem)
Mazadina (á) (anteontem)
9) Alguns números
1-moxi
2-iadi
3-tatu
4-uana
5-tanu
6-samanu
7-sambuadi
10-kuinhi
11 – kuinhi-ni-moxi (dez mais um)
12 – kuinhi-ni-iadi (dez mais dois)
Note-se a regra geral da língua, que atira os adjectivos para depois dos nomes e faz concordar todas as palavras pelo prefixo:
Poko imoxi (uma faca. Literalmente: faca uma)
Jipoko jiadi (duas facas)
Muxi umoxi (uma árvore)
Makamba (m)asamanu (seis amigos)
Uma vez, duas vezes:
Lumoxi, luiadi…
Ngadi ngo lumoxi (só comi uma vez)
10) Interjeições (algumas usam-se em Português de Luanda, que muitas vezes segue o Kimbundu e não o Português de Portugal)
Aiué ou Aiuê! (dor ou embevecimento)
Ala! (não me maces. Desprezo)
Auá! (desdém, enfado)
Exi! (que maçada!, é demais!)
Haca! (Livra!)
Hela! (Caramba!)
Hum! (indecisão. Mas também «sim»)
Hum-hum (lamentação)
Também! (tens cada uma!)
Tunda! (sai!)
Xê! (Olá, tu, você!)
11) Anga – ou
Kufua anga kutolola (Morrer ou vencer – slogan do MPLA nos anos 60)
12) Deus
Nzambi (Deus todo-poderoso) – Ngana Nzambi (Senhor Deus)
Kalunga (Deus do mar, associado a morte) – Kalunga nguma (Deus da morte)
13) Neologismos
A grande língua de referência do kimbundu é o português, a que ele recorre sempre que o seu vocabulário (mais incompleto) apresenta lacunas. O kimbundu da cidade, por ter necessidade de mais vocabulário, interpenetrou-se com o português local, importando variadíssimas expressões.
a) Em kimbundu não existe «se», por isso se recorre ao português:
Kalakala, se uandala kukala mutu! (Estuda, se queres ser pessoa!)
b) Lumingu (domingo), Sapalo (sábado), Ngeleja (igreja), dikalu (carro, camião)
c) Em geral termos políticos e económicos
d) A expressão bessa, ngana (a sua bênção, senhor), por exemplo
e) O português usa, por exemplo, a expressão minhoca ( nkoka – cobra)
f) Conceição – Sesa< (á)
g) Cadeia – caleia (por exemplo, a conhecida canção do movimento de libertação: Doutor Netoé mu caleia, ngongoé (O Doutor Neto está na cadeia, que sofrimento)
h) Mesa – mesa. (Leia-se: messa)

Créditos Rui Ramos – Rui Ramos, jornalista angolano, nascido em Luanda em 1945.

Famadou Konate
Famoudou Konaté é um Pescussionista mestre Malinké da Guiné. Famoudou Konaté é um virtuoso de renome mundial do tambor djembe e sua orquestra. Um de apenas um punhado de mestres da tradição iniciada Malinké percussão, Famoudou é universalmente respeitado como um dos percussionistas do mundo mestre estréia djembe. Ele dedicou sua vida a realizar e preservar a música de seu povo, ajudando a elevar a orquestra djembe de suas raízes tradicionais de popularidade mundial. Famoudou nasceu em 1940 perto Sangbaralla, uma aldeia na região Hamana de Alta Guiné, o coração Malinké e berço da família dundunba de ritmos. Um prodígio de percussão, ele tocava bateria em festivais comunitários, com a idade de oito anos e logo estava na demanda como um djembefola toda a região. De 1959 a 1985, foi o solista Famoudou djembe chumbo para Les Ballets Africains de la République de Guinée, em turnê pelo mundo e tocando com virtuosismo impressionante. Durante este tempo, Famoudou mesmo criou muitos dos arranjos musicais, agora comuns em grupos de desempenho Oeste Africano todo o mundo. Em 1986, começou sua carreira Konaté ensino independente na Europa, ensinando e realizando com o Konaté Famoudou Ensemble, formada e gerida pela dupla lendária bateria de Berlim, “Djembe Tubabu” (Silvia Kronewald e Paulo Engel). No ano de 2000, Konaté foi convidado para os Estados Unidos pela primeira vez como um artista independente pelo Projeto Djembe Chicago. [1] Hoje, Konaté ensina e realiza anualmente em toda a Europa, Japão, Israel, América do Norte e na África Ocidental, incutindo uma geração de não-africanos percussionistas com um extraordinário nível de treinamento. Em 1996, ele recebeu um cargo de professor honorário em Didática da Prática Musical Africano da Universidade de Artes de Berlim. Ele produziu oito CDs, incluindo seu mais recente lançamento, Hamana Namun.

Famoudou Konaté is a Malinké master drummer from Guinea. Famoudou Konaté is a world-renowned virtuoso of the djembe drum and its orchestra. One of only a handful of initiated masters of the Malinké drumming tradition, Famoudou is universally respected as one of the world’s premiere djembe master drummers. He has dedicated his life to performing and preserving the music of his people, helping to elevate the djembe orchestra from its traditional roots to worldwide popularity. Famoudou was born in 1940 near Sangbaralla, a village in the Hamana region of Upper Guinea, the Malinké heartland and the birthplace of the dundunba family of rhythms. A percussive prodigy, he was drumming in community festivals at the age of eight and was soon in demand as a djembefola across the region. From 1959 to 1985, Famoudou was the lead djembe soloist for Les Ballets Africains de la République de Guinée, touring the world and performing with astounding virtuosity. During this time, Famoudou himself created many of the musical arrangements now common in West African performance groups worldwide. In 1986, Konaté began his independent teaching career in Europe, teaching and performing with the Famoudou Konaté Ensemble, formed and managed by the legendary drumming duo from Berlin, “Djembe Tubabu” (Silvia Kronewald and Paul Engel). In the year 2000, Konaté was invited to the United States for the first time as an independent artist by the Chicago Djembe Project.[1] Today, Konaté teaches and performs annually throughout Europe, Japan, Israel, North America and West Africa, instilling a generation of non-African drummers with an extraordinary level of training. In 1996, he received an honorary professorship in Didactics of African Musical Practice from the University of the Arts Berlin.[2] He has produced eight CDs, including his most recent release, Hamana Namun.