Congo de Ouro

Capoeira e Percussão Romário Itacaré

Tenha em Mente que a percussão é uma das mais antigas formas de comunicação entre nós e nossos ancestrais
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Aquivo de outubro, 2015

Quilombo Baoba

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Conheça a Carolina de Jesus

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Carolina Maria de Jesus (Sacramento, 14 de março de 1914 — São Paulo, 13 de fevereiro de 1977) foi uma escritora brasileira.
Biografia
Carolina Maria de Jesus nasceu em Minas Gerais, numa comunidade rural onde seus pais eram meeiros. Filha ilegítima de um homem casado, foi tratada como pária durante toda a infância, e sua personalidade agressiva contribuiu para os momentos difíceis pelos quais passou. Aos sete anos, a mãe de Carolina forçou-a a frequentar a escola depois que a esposa de um rico fazendeiro decidiu pagar os estudos dela e de outras crianças pobres do bairro. Carolina parou de frequentar a escola no segundo ano, mas aprendeu a ler e a escrever.

A mãe de Carolina tinha dois filhos ilegítimos, o que ocasionou sua expulsão da Igreja Católica quando ainda era jovem. No entanto, ao longo da vida, ela foi uma católica devota, mesmo nunca tendo sido readmitida na congregação. Em seu diário, Carolina muitas vezes faz referências religiosas.
Em 1937, sua mãe morreu, e ela se viu impelida a migrar para a metrópole de São Paulo. Carolina construiu sua própria casa, usando madeira, lata, papelão e qualquer coisa que pudesse encontrar. Ela saía todas as noites para coletar papel, a fim de conseguir dinheiro para sustentar a família. Quando encontrava revistas e cadernos antigos, guardava-os para escrever em suas folhas. Começou a escrever sobre seu dia-a-dia, sobre como era morar na favela. Isto aborrecia seus vizinhos, que não eram alfabetizados, e por isso se sentiam desconfortáveis por vê-la sempre escrevendo, ainda mais sobre eles.
Teve vários envolvimentos amorosos quando jovem, mas sempre se recusou a casar-se, por ter presenciado muitos casos de violência doméstica. Preferiu permanecer solteira. Cada um dos seus três filhos era de um pai diferente, sendo um deles um homem rico e branco. Em seu diário, ela detalha o cotidiano dos moradores da favela e, sem rodeios, descreve os fatos políticos e sociais que via. Ela escreve sobre como a pobreza e o desespero podem levar pessoas boas a trair seus princípios simplesmente para assim conseguir comida para si e suas famílias.


Histórico
O diário de Carolina Maria de Jesus foi publicado em agosto de 1960. Ela foi descoberta pelo jornalista Audálio Dantas, em abril de 1958. Dantas cobria a abertura de um pequeno parque municipal. Imediatamente após a cerimônia uma gangue de rua chegou e reivindicou a área, perseguindo as crianças. Dantas viu Carolina de pé na beira do local gritando “Saiam ou eu vou colocar vocês no meu livro!” Os intrusos partiram. Dantas perguntou o que ela queria dizer com aquilo. Ela se mostrou tímida no início, mas levou-o até o seu barraco e mostrou-lhe tudo. Ele pediu uma amostra pequena e correu para o jornal. A história de Carolina “eletrizou a cidade” e, em 1960, Quarto de despejo, foi publicado.
A tiragem inicial de dez mil exemplares se esgotou em uma semana (segundo a Wikipédia em inglês, foram trinta mil cópias vendidas nos primeiros três dias). Embora escrito na linguagem simples e deselegante de uma pessoa sem muita instrução, seu diário foi traduzido para treze idiomas e tornou-se um best-seller na América do Norte e na Europa. Mas não foram somente fama e publicidade que Carolina ganhou com a publicação de seu diário: despertou também o desprezo e a hostilidade de seus vizinhos. “Você escreveu coisas ruins sobre mim, você fez pior do que eu fiz”, gritou um vizinho bêbado. Chamavam-a de prostituta negra, que havia se tornado rica por escrever sobre a favela, mas que se recusava a compartilhar o dinheiro. Muitas pessoas jogavam pedras e penicos cheios nela e em seus filhos. A raiva dos vizinhos também teria sido motivada pela mudança de endereço de Carolina, para uma casa de tijolos nos subúrbios, o que foi possível com os ganhos iniciais da publicação de seu diário. Vizinhos se juntaram ao redor do caminhão e não a deixavam partir.
A filha de Carolina, Vera Eunice hoje professora,contou, em entrevista, que sua mãe aspirava a se tornar cantora e atriz. [1]
Pobre e esquecida, Carolina Maria de Jesus morreu em 1977, de insuficiência respiratória, aos 62 anos.[2]
Perspectiva
Carolina jamais se resignou às condições impostas pela classe social a qual pertencia. Em uma vizinhança com alto nível de analfabetismo, saber escrever era uma conquista excepcional. Carolina escreveu poemas, romances e histórias. Um dos temas abordados em seu diário foram as pessoas do seu entorno; a autora descrevia a si mesma como alguém muito diferente dos outros favelados, e afirmava “que detestava os demais negros da sua classe social”.
Ao ver muitas pessoas do seu círculo social sucumbirem às drogas, álcool, prostituição, violência e roubo, Carolina lutou para se manter fiel à escrita, e aos filhos, a quem sustentava vendendo lixo reciclável e com as latas de comida e roupa que encontrava no lixo. Parte do papel que recolhia era guardado para poder continuar escrevendo.
Escreveu e publicou alguns livros após Quarto de Despejo, porém sem muito sucesso. Seu auge e decadência como figura pública foram fugazes. Isso possivelmente ocorreu devido à sua personalidade forte, que a afastava de muita gente, além da drástica mudança no panorama político brasileiro, a partir do golpe de estado em 1964, que marginalizaria qualquer manifestação popular.
Além disso, Carolina também escreveu poemas, histórias curtas, e diários breves, embora estes nunca tenham sido publicados. A edição de 1977 do Jornal do Brasil trazia, no obituário da autora, comentários sobre ela supostamente se culpar por não ter sabido aproveitar a sua breve fama, e afirmava que ela havia morrido pobre devido à sua teimosia. No entanto, o que é realmente relevante é a importância da sua história para a compreensão da condição de vida nas favelas brasileiras da época.
Seu livro foi amplamente lido, tanto na Europa ocidental capitalista e nos Estados Unidos, como nos países do bloco socialista, o chamado bloco oriental e Cuba; um abrangente público que mostrava como a sua história havia tocado milhares pessoas fora do Brasil.
Para o ocidente liberal e capitalista, seu primeiro livro retratava um sistema cruel e corrupto reforçado durante séculos por ideais colonizadores presentes nas dinâmicas sociais da população. Já para os leitores comunistas, suas histórias representavam perfeitamente as falhas do sistema capitalista no qual o trabalhador é a parte mais oprimida do sistema econômico.
Como é observado pelo historiador José Carlos Sebe, “traduções dos seus diários em classe foram utilizadas por diversos especialistas estrangeiros sobre o Brasil, durante anos.”; isso indica a importância mundial do seu papel como fonte primária sobre a vida nas favelas. E o autor Robert M. Levine descreve de que modo “a palavra da Carolina deu vida a uma parte da América Latina pouco estudada nos livros didáticos tradicionais.”

Fonte: Wikipedia

Camafeu de Oxossi

Camafeu de Oxóssi

Ápio Patrocínio da Conceição – Camafeu de Oxóssi (Salvador, BA, 4 de outubro de 1915 – 1994).
Cantor, músico e comerciante baiano, Ápio Patrocínio da Conceição ficou conhecido pelo seu apelido, Camafeu de Oxóssi. Devido a suas muitas qualidades, tornou-se um ícone da cidade de Salvador, capital do estado da Bahia. Camafeu de Oxóssi é citado em diversas músicas e livros que retrataram a cidade na segunda metade do século XX. Obá de Xangô da Casa de Candomblé Axê Opô Afonjá e ex-presidente do Afoxé Filhos de Gandhi, esteve, ao lado de outras personalidades da cultura afro-brasileira, representando o Brasil e a Bahia no primeiro Festival de Artes Negras realizado em Senegal.

Ápio Patrocínio da Conceição nasceu em Salvador, cidade onde residiria por toda a sua vida e onde ainda jovem receberia o apelido de Camafeu, palavra que dá nome a uma pedra preciosa, um doce e um broche. O apelido seria complementado pela referência ao Orixá Oxóssi, que protegia o jovem adepto da religião do candomblé. Filho da baiana de tabuleiro Maria Firmina da Conceição, Camafeu de Oxóssi perdeu o pai, Faustino José do Patrocínio, quando ainda era muito novo. Cresceu pelas bandas do Pelourinho, trabalhando em pequenos ofícios ambulantes como engraxate, vendedor de cadarço e de jornal. Estudou na Escola de Aprendiz de Artífice, trabalhando na fundição e mais tarde passou para a estiva, até tornar-se dono da Barraca de São Jorge, no antigo Mercado Modelo, que vendia berimbaus e artigos religiosos afro-brasileiros.
Da sua vivência e conhecimentos adquiridos nas ruas de Salvador, Camafeu tornou-se Mestre em Capoeira, exímio tocador de berimbau, cantador e compositor de cantigas, chulas, sambas, além de conhecedor de inúmeras estórias e lendas da cidade. Era como uma memória viva das ruas de Salvador.

Da sua vivência em um dos mais tradicionais terreiros de Salvador, o Candomblé Axé Opô Afonjá, nos tempos da renomada Mãe Senhora, tornou-se Obá de Xangô, posto conferido a outros nomes de destaque da cultura brasileira como o artista plástico Carybé e os cantores Dorival Caymmi e Gilberto Gil.
Durante a década de 60 quando foi inaugurado o curso de Iorubá da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Camafeu foi um dos primeiros alunos do curso. Na mesma década lançou pela Continental seu primeiro disco, intitulado “Berimbaus da Bahia” (1967), composto de cantigas de capoeira em seu lado A e cantigas de Orixás no lado B. No ano seguinte, lançou seu segundo disco, desta vez pela gravadora Philips, “Camafeu de Oxóssi”, composto também por músicas de capoeira e canções votivas a Orixás.

Em 1972 Camafeu inaugurou, ao lado de sua esposa Toninha, um restaurante no novo Mercado Modelo, instalado no prédio da antiga alfândega, depois que um incêndio destruiu o antigo. O lugar tornou-se rapidamente um dos mais procurados de Salvador, famoso por um ótimo tempero e atendimento impecável. Desde então, o restaurante de Camafeu de Oxóssi divide espaço com outro também bastante conhecido, que pertence à família da famosa cozinheira baiana Maria de São Pedro, falecida em 1958.
Entre 1976 e 1982 Camafeu de Oxóssi foi presidente do famoso Bloco de Afoxé Filhos de Gandhy, fundado em 1949, mesmo ano em que o líder Indiano Mahatma Gandhi, que inspira o grupo, morreu assassinado. O Bloco teve origem entre trabalhadores da estiva e desfila pelas ruas de Salvador durante o carnaval e outras festas, cantando em louvor aos Orixás. Entre 1973 e 1976 o grupo passou por uma crise e deixou inclusive de desfilar. Camafeu de Oxóssi foi um dos responsáveis pela retomada e crescimento do grupo, trazendo de volta integrantes que haviam deixado de desfilar pelo Afoxé.
Ápio Patrocínio da Conceição faleceu em 1994, na cidade de Salvador, aos 78 anos, vítima de um câncer. Seu enterro foi um dos mais assistidos da Bahia. Para uma última despedida a Camafeu de Oxóssi, compareceram figuras ilustres da vida politica e cultural baiana, em cerimônia realizada no Cemitério da Ordem Terceira de São Francisco.

 

Saiba mais +

Fontes e Referências


Foto:
Adenor Gondim

Bibliografia:
AMADO, Jorge. Bahia de Todos os Santos: guia de ruas e mistérios. Desenhos de Carlos Bastos. 27ª Edição. Rio de Janeiro: Record, 1977.

CARYBÉ. As Sete Portas da Bahia: texto e desenhos de Carybé; prefácio de Jorge Amado. 4ª Edição. Rio de Janeiro: Record, 1976.  

SALAH, Jacques. A Bahia de Jorge Amado. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 2008.

Internet:
http://blogdogutemberg.blogspot.com.br/2007/02/camafeu-de-oxossi.html (último acesso em 13/06/2014).

Gildo Alfinete

Mestre Gildo Alfinete nasceu em 1940, em Salvador, Bahia. Com 13 anos, observava os capoeiristas do cais do porto da velha Bahia. Apaixonou-se pela arte. Por meio de seu amigo, o dr. Colmenero, ingressou na Academia de Mestre Pastinha, o Centro Esportivo de Capoeira Angola – CECA. Com Mestre Pastinha, desenvolveu grande amizade. Ocupou lugar de destaque, como Presidente do Conselho de Mestres da Associação Brasileira de Capoeira Angola – ABCA, situada no Pelourinho. Lá, foi responsável pelo acervo da ABCA, tendo criado o primeiro Museu de Capoeira Angola do mundo. Integrou, também, em 1966, a delegação brasileira no Premier Festival des Arts Nègres (Dakar – Senegal). Grande mestre da Capoeira Angola, recebe a todos na ABCA com muita simpatia.

 

 

Mestre Gildo Alfinete

Gildo Alfinete est l’un des disciples de Mestre Pastinha, il est né en 1940, et découvre le CECA, “Centro Esportivo de Capoeira Angola” à Salvador de Bahia par l’intermédiaire de son ami le dr. Colmenero
En 1966, Accompagné des Mestres Pastinha, Joao Grande, Camafeu de Oxossi, Santana, il fait partie la délégation de Capoeira au Premier Festival des Arts Nègres (Dakar – Sénégal).
Il est membre de l’ABCA, “association Brésilienne de Capoeira Angola”.

Para Gildo Alfinete e o mundo além da Bahia

Gildo Lemos Couto, nascido em 16 de janeiro de 1940, meu irmão de sangue e de Capoeira Angola. Mestre Gildo Alfinete!

Neste vídeo fica registrada minha homenagem ao Mestre Angoleiro Gildo Alfinete, que me levou para a capoeira quando eu ainda tinha 8 anos de idade.

Além de ter sido meu Mestre em casa, meu irmão Gildo me proporcionou também a oportunidade única e histórica de conviver com Mestre Pastinha e, desse modo, beber direto na fonte um pouco da mandinga e da ginga dessa lenda da capoeira.

Eu e Gildo somos duplamente compadres. Eu, padrinho de Carolina, sua primogênita. Ele, padrinho de Rodrigo, meu primogênito. Deixo meu agradecimento eterno pelo legado da Capoeira plantado em mim, que certamente fez se enraizar mais ainda, minha cultura da baianidade.

Somente um olhar jornalístico, ao mesmo tempo perto e distante da cena, poderia ter produzido e roteirizado este registro de sua trajetória e de seu convívio com os grandes nomes da Capoeira Angola.

A você meu irmão, um registro que fica para o Tempo, o senhor de tudo. Um documento da História Viva da Capoeira Angola, do Pelourinho, de Salvador da Bahia. Um documento histórico da cultura e da arte da Bahia para o mundo.

Um presente para você e para todos que amam a CAPOEIRA, a arte e a verdadeira cultura popular.

De Genésio Lemos Couto – ou Genésio Meio Quilo – seu eterno aprendiz, para meu Mestre na Vida.

Mestre Gildo Alfinete veio a Falecer em 12 de Outubro de 2015 dia de Nossa Senhora Aparecida.

Galeria de Imagens mais Recentes:

Conheça o Mestre Moa do Katendê

Moa do Katende
Môa do Katendê nasceu em Salvador (BA) e é um artista ligado às tradições afro-baianas. Compositor, dançarino, capoeirista, ogã-percussionista, artesão e educador, descobriu suas raízes aos oito anos de idade no “ILÊ AXÉ OMIN BAIN”, terreiro de sua tia e incentivadora. Em 1977, consagrou-se campeão do Festival da Canção Ilê Aiyê, o primeiro bloco afro do Brasil, e em Maio de 1978 fundou o “Afoxé “Badauê”, que desfilou pela primeira vez no ano seguinte e tornou-se campeão do carnaval na categoria de afoxé. Em 1995 com a união de colegas e admiradores da cultura afro-brasileira, surge o grupo de afoxé “Amigos de Katendê”.
Mestre Môa do Katendê é baiano de Salvador. Artista ligado às tradições Afro-baianas; compositor, dançarino, capoeirista, ogã-percussionista, artesão e educador, tendo descoberto suas raízes aos oito anos de idade no “ILÊ AXÉ OMIN BAIN” terreiro de sua tia e incentivadora.


Em 1995, com a união de colegas e admiradores da cultura afro brasileira, surge o grupo de afoxé “Amigos de Katendê”, que neste mesmo ano participou do carnaval em São Paulo na Cohab José Bonifácio. Em 1996 o grupo viaja a Salvador reintegrando os componentes do “Badauê” e outros afoxés e desfila no carnaval, estabelecendo assim um intercâmbio entre Bahia e
São Paulo. Atualmente Mestre Moa do Katendê vem ministrando oficinas de afoxé na Bahia, Sudeste e Sul do Brasil e na Europa
e é o coordenador geral do afoxé “Amigos de Katendê”.
Mestre Moa do Katende fala sobre a “reafricanização” da juventude da Bahia e do processo batizado por Antonio Risério de “reafricanização” do carnaval na Bahia, e atribui este processo a própria dinâmica interna da vida baiana.
Enumera os marcos fundamentais deste processo: a forte presença de organizações e clubes negros nos carnavais da Bahia o “renascimento” do Afoxé Filhos de Gandhi, um dos símbolos do carnaval baiano organização carnavalesca fundada em 1949 por trabalhadores da estiva do Porto de Salvador, um ano antes, portanto do aparecimento do Trio Elétrico, e que no início do dos anos 1970 praticamente desaparecera – e o surgimento do Ilê Ayiê, o primeiro dos muitos Blocos Afro surgidos neste período.
Extrapolando os limites de uma mera participação no carnaval os Blocos Afro ocupam física e culturalmente espaços da cidade, alguns, antes estigmatizados por serem “lugar de preto”, outros, hegemonizados desde sempre pelas elites .
Assim como o surgimento do Trio Elétrico, em 1950, veio revolucionar e particularizar o carnaval da Bahia, o processo de “reafricanização”, especialmente com a entrada em cena dos “blocos afro” precipitando a reação africanizante e explicitando marcadamente um caráter étnico hegemonizam do ponto de vista estético, musical e gestual, transformam radicalmente a trama carnavalesca baiana . As pessoas que criaram as novas entidades “afrocarnavalescas” da Bahia assumem e explicitam a matriz negra da cultura baiana numa dimensão nunca antes registrada como é o caso, por exemplo, do próprio Moa do Katendê fundador do Afoxé Badauê, onde vemos a importância assumida pelos cantores na expressão de valores afros entre a comunidade negromestiça de Salvador a consciência da africanidade e da nova poesia afro-baiana, baseada em reminiscências e jogando com a sonoridade das palavras africanas extraídas do vocabulário dos candomblés, textos da autoria de Paulinho Camafeu, Moa do Catendê, Caetano Veloso, Antonio Risério, Heron, Curimã, Moraes Moreira, Gilberto Gil, Ivo do Ilê, Milton de Jesus, Charles Negrita, Chico Evangelista, Jorge Alfredo, Ana Cruz, Cebolinha, Alírio do Olodum, Lazinho Boquinha, Jailton, Egídio e Buziga.

Entrevista
José Flávio — Mestre, o que significa a capoeira para o senhor?

Mestre Moa do Katendê — Capoeira é tudo que move para mim. É uma cultura rica, uma cultura dos ancestrais que eu procuro, sempre que posso, cultuar, zelar, transmitir conhecimentos. Na verdade, o conhecimento foi dado pelo meu mestre, daí eu sigo pelo mundo, sempre que posso, divulgando.

José Flávio — Deve ser uma honra ser mestre de capoeira na terra de grandes mestres?

Mestre Moa do Katendê — Sim. Sem dúvida. Conviver com eles então…

José Flávio — O Sr. conheceu o Mestre Pastinha?

Mestre Moa do Katendê — Conheci o Mestre Pastinha e tive a oportunidade de estar por duas vezes na academia dele, justamente quando o mestre já tinha um grupo formado. Ele nos levou duas vezes, dois domingos, para a gente se apresentar na academia do mestre Pastinha. Para que ele mostrasse o trabalho dele. A outra oportunidade foi em 66 quando o Mestre Pastinha estava viajando para a África. Era a despedida dele e eu fui assistir essa apresentação que foi muito bonita. O Mestre Pastinha era uma figura simples, mas tinha uma inteligência fora do comum. Foi um homem que lutou pela preservação da capoeira angola, pelos seus princípios, seu ritual e abriu espaço para que uma gama de capoeiristas bebesse dessa fonte. Foi uma pessoa que possibilitou essa condição de as pessoas conhecerem a capoeira.

José Flávio — E o Mestre Bimba? O Sr. também o conheceu?

Mestre Moa do Katendê — O Mestre Bimba só de passagem. Pelo fato de que, naquela época, existiam dificuldades. A gente era menino, e menino obedecia muito aos pais. A gente não poderia ir a qualquer lugar sem autorização deles. O Mestre Bimba já era um pouco mais afastado da gente. Era outro bairro. Então conheci ele só de vista, mas não de ter contato, como tive com o Mestre Pastinha. Foi diferente com ele, porque era mais próximo da gente, e pela ligação que o meu mestre tinha com ele. Então era mais fácil para a gente. Hoje em dia tem uma facilidade muito grande pela comunicação que há… A capoeira, hoje, ela se aproximou bastante… Os mestres se aproximaram bastante dos alunos. Naquela época era muito difícil a gente poder ficar junto com o mestre. Então era algo de dificuldade muito grande.

José Flávio — Que dificuldades eram estas?

Mestre Moa do Katendê — A dificuldade era por uma questão de educação mesmo. A formação da gente era uma formação muito tacanha. Então, estar com o mestre era muito difícil. Era tudo muito rígido. Hoje eu vejo a facilidade que um aluno tem de fazer uma foto com o mestre. Naquele tempo a maioria das pessoas não tinha máquina (fotográfica), e quem possuía uma eram pessoas de um poder aquisitivo maior. Então a gente não tinha máquina e, mesmo que a gente tivesse, teria que suar muito, se sacrificar muito para conseguir uma foto junto com o mestre. Mas hoje existe uma facilidade muito grande, a capoeira ela vai para o mundo. Hoje, ela tá em praticamente todos os países do mundo, tanto na Europa quanto na América Latina, América do Sul, América Central, no Oriente Médio… Na África, pouco, por incrível que pareça. A gente só tem conhecimento de Angola, Moçambique. Pode ser que tenha em outros países africanos, mas eu não tenho certeza, mas Moçambique e Angola, sim. Poderia estar em toda a África, já que ela veio de lá. Mas se perdeu muito o que saiu de lá, se perdeu muito, veio para o Brasil e aqui se constrói. A capoeira é construída, na verdade, aqui.

José Flávio — Em termos de experiência de vida, o que a capoeira acrescentou na vida do senhor?

Mestre Moa do Katendê — A experiência profissional, ela abriu minha cabeça para o entendimento de liberdade, de irmandade, de companheirismo, de respeito ao próximo, de respeito ao mundo, respeito à natureza, principalmente, respeito à Roda, respeito aos colegas… A capoeira me ensinou tudo isso e um pouco mais, por exemplo, a facilidade de escrever. Hoje eu sou um compositor, escrevo além da capoeira. Escrevo ritmos de samba, do afoxé. Escrevo para os blocos da Bahia. Então, eu agradeço muito à capoeira, pelo fato de estar na Roda, de estar jogando, de estar trocando conhecimento. Isso me impulsionou a escrever algumas coisas. Além disso, a parte do artesanato também me abriu muito esse leque hoje, de fazer berimbau, de fazer caxixi, de fazer outros instrumentos, além da capoeira também. Então, essa experiência profissional é uma realização, e também de passar esse conhecimento, porque em vários momentos, eu sou convidado para dar cursos de artesanato, de dança, de percussão, de berimbau, de ritmo de berimbau.

José Flávio — O Sr. também é convidado para falar de capoeira?

Mestre Moa do Katendê — Aqui eu também falei de capoeira com os meninos e mostrei alguns ritmos, além da capoeira, como o samba de roda, que é muito presente. Quando acaba uma Roda de Capoeira, sempre tem um samba de roda. Eu pude mostrar para eles como se dá a introdução do pandeiro, do atabaque, da palma da mão, do canto e foi muito legal. Falei de puxada de rede, que é outra manifestação cultural que existe e, além disso, da própria capoeira. Passei para eles a forma de tocar baixo, para a gente adquirir educação musical, ouvir todos os instrumentos, ouvir a voz e responder. Então a capoeira, ela é completa, ela interage. A gente, no momento em que está tocando, a gente percebe que, automaticamente, as pessoas respondem, porque a música entra no sangue, entra mesmo no espírito e as pessoas conseguem participar junto com que tá cantando.

José Flávio — Quando o Sr. estava cantando, ali na roda, uma das músicas, eu senti como que um resgate do passado. A música na capoeira ela tem esse objetivo de resgatar a história de um povo, de uma nação, a nação brasileira…

Mestre Moa do Katendê — Ela tem esse objetivo, sim. Ela vai lá no fundo para a gente trazer para o presente à importância que foi e que é a história dos mestres. Eles que deram toda uma vida para que a capoeira estivesse como está hoje. Então a gente, sempre que pode, vai buscar música lá no fundo e trazer para a nova geração que vai continuar a capoeira, possa tomar conhecimento dela.

José Flávio — Falando de valores, como mestre, que conhecimentos o Sr. procura transmitir para os seus alunos?

Mestre Moa do Katendê — Os valores são respeito, respeito ao próximo. Entrar na vida do menino, no sentido de saber como anda a vida dele na casa dele, com os pais, na escola. A gente procura fazer esse trabalho de base, que é para que a capoeira, ela seja um elemento de equilíbrio para a criança. Ela consegue equilibrar a coisa do reflexo, ela possibilita… Na verdade, é um exercício mental. Jogar capoeira, na verdade, é um diálogo que requer observação. Então a gente vive querendo que o aluno observe sempre, tenha calma. Isso, a criança vai levar para a sua vivência no mundo, levar isso para a sua construção de ser humano, de cidadão, como lidar com o mundo aqui fora, além da Roda, porque é complicado o mundo das drogas que está aí, para ele ter um equilíbrio emocional, não se envolver, e sempre se lembrar da capoeira, dessa coisa maravilhosa que é estar na Roda. Então, isso é transmitido, não só por mim, mas por todos os mestres que tem responsabilidade com ela, com a capoeira, então, o menino só tem a ganhar com isso. A gente cresceu com isso, então, a gente passa isso para elas, para essas as crianças.

José Flávio — Qual a importância dessas manifestações culturais como a capoeira, samba de roda, afoxé e outras manifestações ligadas à cultura negra, como elemento de autoafirmação desse povo?

Mestre Moa do Katendê — Ajuda muito porque o que a gente está fazendo, na verdade, é um exercício de cidadania. O momento em que a gente está cantando, o momento em que a gente está tocando, que a gente está jogando, a gente tá praticando a capoeira, a gente tem a nossa grande arma que é essa comunicação. Seria nossa mídia alternativa. É o nosso canal de verdade. Porque a gente pode rememorar os grandes mestres, buscar a verdade do povo negro, e quebrar barreiras. No momento em que a gente está aqui, a gente está dando as mãos, está fazendo uma grande aliança para quebrar essas barreiras que ainda existem de preconceito. Assim a gente se autoafirma como negro, como povo brasileiro e, acima de tudo, como um elemento que contribui, não só para a cultura desse país, mas também para a economia desse país. Quando a gente vê a política sendo praticada por políticos mal preparados, a gente vê tanto desfalque, tanta falcatrua, a gente percebe que isso é muito prejudicial para o nosso país, para as nossas crianças. Então a gente procura impulsionar no aluno a gana dele, a vontade dele de buscar mais, além da capoeira, estudar, se formar. Aqui a gente percebe que há essa possibilidade mesmo de… Essa construção, não é só a capoeira, de jogar capoeira, é avançar mais ainda, é a gente poder, amanhã ou depois formar um aluno, ver um aluno formado em advocacia, ver um aluno formado em medicina e ele poder agradecer a capoeira, que foi o impulsionador de tudo isso para ele. Porque a capoeira vai dentro, e vai mostrando as possibilidades de galgar posições melhores na vida. Então esse é o maior ganho que a capoeira tem, traz e possibilita para qualquer um. É só querer mergulhar nela, na história que ela tem, na origem dela e a pessoa, mais na frente, vai descobrir que pode partir para frente no sentido de se formar e trazer para a comunidade a experiência adquirida. Porque é importante ele se formar e voltar para a origem e poder falar dessa experiência e incentivar, estimular a quem tá chegando agora, a não só jogar capoeira, mas, pensar no futuro.

José Flávio — O Sr. tem muito amor pela capoeira, inclusive o Sr. estava falando agora há pouco para o pessoal da Roda, que fez uma cirurgia faz cerca de um mês, mas se destinou a sair de Salvador aqui para Campinas para participar desse evento…

Mestre Moa do Katendê — Na verdade, a gente tem forças. Todo ser humano tem suas forças superiores. A gente respeita muito, a gente que participar dessa tradição de matriz africana, a gente respeita muito, mergulha muito nisso, a gente entende que nós não somos nada. Nós temos os nossos guias que vão iluminando a gente e vão nos colocando no caminho e vão dizendo, “Você pode”! Então, se eu estou aqui, na verdade é porque eles me deram essa condição de estar aqui. Primeiro Deus e as forças que ele rege, que ele está regendo, e, as amizades do Topete, as amizades com os capoeiristas, com os colegas, tanto da minha idade, quanto os novos, os que estão começando agora. Isso é que faz com que eu esteja aqui. Não estou muito preocupado com a coisa material da cirurgia, porque ela já foi resolvida e, tenho certeza de que, os olhos e, vamos dizer assim, toda uma corrente positiva, ela tá sendo trabalhada para que eu esteja aqui e eu me recupere o mais rápido possível. Então, estou muito feliz de estar aqui, em Campinas. Já é a segunda vez que eu venho aqui, mas, neste evento, é a primeira vez. Peço para que o Topete, ele avance mais ainda, que ele consiga bons êxitos com o trabalho dele, que é para Campinas ter nele, e no grupo dele, uma referência cultural, porque, não só Campinas, o povo de Campinas, a comunidade, mas o povo brasileiro possa vir aqui e ter aqui na academia dele, na escola dele, um centro de referência, onde as pessoas possam pesquisar, possam ter, a partir dele, informações, não só da Capoeira de Campinas, mas da capoeira do mundo inteiro. Então, eu desejo que ele tenha sucesso sempre, que ele continue empenhado nos trabalhos que é árduo, é difícil, mas é prazeroso. Eu tenho certeza de que quando ele sair daqui, vai para casa fortalecido com tudo o que ele está presenciando, que ele está vendo, que ele está participando e vendo também as pessoas felizes. Porque a gente faz as pessoas felizes e gente também se sente feliz com isso. Então, na verdade, a gente mantém essa troca viva, que é uma troca que já existia lá atrás, que sempre existiu com o povo africano e, com a diáspora negra aqui no Brasil, essa reconstrução, a gente sabe muito bem, o quanto foi difícil a gente hoje poder cantar, livremente, apesar de alguns preconceitos, mas poder cantar, isso lá atrás, há 100, 200 anos atrás, era impossível de se fazer. Então, isso é um presente que, na verdade, os ancestrais dão para a gente. Um grande presente que a cultura afro-brasileira, a capoeira nos proporciona.

***

As atividades de Mestre Moa aqui no estado de São Paulo, ainda não terminaram. Ele ainda participa de uma programação na cidade de São Paulo, nos dias 4, 5, 6 e 7 de dezembro. No evento serão oferecidos oficinas de capoeira, confecção de xequerê, dança-afro, samba de roda e

Jorge Rasta

Mestre de saberes populares, arte educador, mamulengueiro, coreógrafo, idealizador/fundador da Casa do Boneco de Itacaré , Antonio Jorge de Jesus, conhecido artisticamente como Jorge Rasta, que nasceu no bairro de Alagados, em Salvador e se profissionalizou graças à ação de uma associação de bairro a Associação de Moradores Livres da Mangueira de Massaranduba, que o inseriu no mundo da arte e da cultura..

A Casa do Boneco de itacaré tem sua origem fundamentada no trabalho voluntário
Com o ensejo desmultiplicar aquilo que havia aprendido, Jorge Rasta, em 1987, migrou para Itacaré, cuja formação étnica é resultado da miscigenação entre índios, negros e brancos, o que propiciou um imenso legado artístico cultural que com o passar do tempo ficou adormecido, graças a ação dos veículos de massa.
No ano de 1988, Jorge Rasta montou o primeiro grupo de capoeira e danças folclore[[oricas do município, desde então vem realizando diversas atividades artísticas e culturais com crianças e jovens da comunidade, o que resultou na criação da Associação de Educação Arte e Cultura Popular casa do Boneco de Itacaré.

A Casa do Boneco de Itacaré é uma associação sem fins lucrativos, que de4sde 1988 trabalha com a cultura a serviço da população afro indígena, historicamente excluída.
O seu trabalho alia identidade cultural à inclusão sócio econômica a partir de um trabalho de educação popular e capacitações profissionalizantes, combatendo a marginalização e a exploração sexual de jovens negros inseridos num contexto de turismo ” desenfreado e predatório” regional.
Atualmente, a Casa do Boneco funciona com atividades de segunda a sábado em todos os turnos (aulas de dança afro, percussão, teatro do oprimido, teatro de bonecos, arte circense, capoeira angola, shows, cursos de corte e costura, grupo de estudos afro e etc.
A Casa do Boneco

A Associação de Afro Desenvolvimento Casa do Boneco de Itacaré (CBI) é uma associação sem fins lucrativos, que desde 1988 trabalha com a cultura a serviço da população afro indígena, historicamente excluída. O trabalho alia identidade cultural à sustentabilidade socioeconômica a partir de uma educação afro popular, engajamento político e capacitações profissionalizantes, escambos, intercâmbios com organizações e mestres.

Como centro de desenvolvimento afro comunitário baseado na aprendizagem autossustentável, considerando, prioritariamente, princípios etno raciais, ecológicos, socioeconômicos, espirituais e culturais, a entidade busca alternativas que possam diminuir os impactos socioculturais gerados pela sociedade capitalista à população negra. A entidade tem a preocupação de gerar um processo educativo diferenciado, para capacitar, viabilizar a profissionalização, gerar renda a partir de empreendimento solidários e elevar a autoestima da população negra e afro-indígena. Empenha-se, também, em vivenciar, estudar e refletir os valores da cosmovisão africana e quilombola, capaz de conduzir um modelo de vida baseado na ancestralidade e na humanização das relações.

A Casa tem se articulado territorial, estadual e internacionalmente com intuito de trabalhar em rede numa estratégia de maior aprendizado, intercambio de práticas, escambos e melhor capacidade de governança.

Tornou-se um centro de referência afro participante da Rede Nacional de Turismo Solidário (Turisol); do Núcleo de Formação Continuada da Rede Nacional Mocambos; da Teia de Agroecologia dos Povos da Cabruca e da Mata Atlântica, representante em 2010 da Delegação brasileira nos Estados Unidos pela Agenda Bilateral de Promoção da Igualdade. A entidade desenvolve cinco programas:
• Educação Anti Racista – seminários, diálogos, estudos e pesquisas a respeito da lei 10.639 / promoção da educação para igualdade racial
• Cultura afro – atividades de dança afro, percussão, festas populares
• Apropriação Tecnológica – circuitos de aprendizados com diferentes tipos de tecnologias sociais (dentre elas as tecnologias da comunicação – blogs, jornais, rádios web)
• Sustentabilidade Comunitária – Implementação da Fazenda Modelo Quilombo Doiti e do Turismo Étnico de Base Comunitária
• Pontinho de Cultura / Ludicidade – programa de atenção à crianças negras
Visite nossa fan page: Casa do Boneco – Quilombo Doiti
email: casadobonecodeitacare@gmail.com